Urinary Iodine Excretion, 1997


Urinary Iodine Excretion in 16,803 Brazilian Schoolchildren
Roberto Zonato Esteves, Rui Monteiro de Barros Maciel

Abstract | Introdução | Métodos | Resultados | Discussão | Bibliografias

INTRODUÇÃO

1. Considerações Iniciais

A deficiência em iodo é a principal causa evitável de dano cerebral em fetos e crianças e de retardo do desenvolvimento psicomotor. Trata-se de problema de saúde pública de escala global, envolvendo 118 países; hoje, cerca de 1 bilhão e meio de pessoas vi vem em regiões carentes em iodo, sendo que aproximadamente 655 milhões apresentam bócio e 89 milhões sofrem as consequências do dano cerebral (World Health Organization, WHO, 1996; WHO/Nutrition Programme, 1996).

O iodo é um microelemento essencial, sendo a sua principal função no organismo a síntese dos hormônios tiroidianos; as necessidades dietéticas mínimas diárias são de 100-150 mg/dia para adultos e adolescentes, 60-100 mg/dia para crianças de 1 a 10 anos e 35-40 mg/dia para aquelas com menos de 1 ano (Delange, 1990; Delange, 1994). Se estes níveis não forem atingidos em uma dada região, um amplo espectro de alterações funcionais pode ocorrer. Apesar destas manifestações serem evidentes em regiões de carê ncia importante de iodo, onde encontramos bócio e cretinismo como manifestações extremas, a prevalência de alterações mais sutis como hipotiroidismo subclínico, baixo rendimento escolar, aumento da mortalidade perinatal e infantil e estagnação socioeconôm ica, tende a ser sub-avaliada quando a deficiência é leve ou moderada (Stanbury, 1986a; Stanbury, 1986b; Lamberg, 1993).

2. Monitoração da Carência de Iodo

Tendo em vista que a avaliação da ingestão de iodo a nível populacional é inviável, os inquéritos nutricionais empregam índices indiretos, dos quais os mais utilizados são a prevalência de bócio e a determinação da excreção urinária de iodo (Dunn e Van De r Haar, 1992).

2.1. Prevalência de Bócio

Os levantamentos de prevalência de bócio baseiam-se geralmente na inspeção e palpação da tiróide; apesar da ultrassonografia permitir uma determinação mais precisa do volume tiroidiano, é dispendiosa e exige qualificação do examinador, o que limita seu em prego. Tendo em vista o grande número de indivíduos que precisam ser estudados e a necessidade de diminuir a variação entre os observadores (muitas vezes agentes de saúde com pouco treinamento), a classificação simplificada leva em conta se o bócio é palp ável e/ou visível (Dunn e Van der Haar, 1992; INAN/FNS, 1996) (tabela 1).

__________________________________________________
Tabela 1 - Classificação dos Bócios (ICCIDD, 1992)
__________________________________________________
Grau	Descrição
__________________________________________________
0	Ausência de bócio
1	Bócio palpável e não visível
2	Bócio palpável e visível
__________________________________________________

 

Para que o bócio possa ser dito endêmico numa determinada região, sua prevalência deve ser maior ou igual a 10%, o que demonstra, habitualmente, que o fator ambiental é a carência em iodo. No entanto, a presença de outras causas ambientais bociogênicas, como o tiocianato e a carência em selênio, fazem com que tal índice nem sempre reflita a situação real da carência em iodo (Gaitán, 1973; Gaitán e cols., 1986; Thilly e cols., 1992; Gaitán e Dunn., 1992). Além disto, tem sido demonstrado que nem sempre a frequência de bócio como dado isolado prediz o risco de hipotiroidismo, cretinismo e outras alterações decorrentes da insuficiência iódica a que uma população está submetida (Delange e cols., 1986).

2.2. Determinação da Excreção Urinária de Iodo

A concentração de iodo na urina (a excreção renal corresponde a mais de 90% das perdas e é equivalente à ingesta nutricional) é, atualmente, o marcador bioquímico mais utilizado para a avaliação da deficiência em iodo (Boyages, 1993; Dunn e cols., 1993a); além de seu alto valor diagnóstico, é mais barato e tecnicamente mais simples de ser realizado que os outros índices, como as dosagens séricas de hormônios tiroidianos e tiroglobulina ou a captação de iodo radioativo.

No entanto, as condições dos inquéritos populacionais não permitem geralmente que se colham amostras de urina de 24 horas, o que seria o ideal para a determinação da perda renal de iodo. Como estes estudos empregam a coleta de amostras de urina ao acaso ( coleta casual), várias formas de estimar a excreção diária de iodo têm sido desenvolvidas, expressando o teor de iodo na amostra em função de um índice de concentração urinária como a creatininúria ou a densidade urinária (Frey e cols., 1973; Bourdoux e c ols, 1986). O emprego da relação iodo/creatinina apresenta o inconveniente da excreção de creatinina variar de acordo com o grupo racial, sexo, massa muscular e aporte nutricional do indivíduo. Isto faz com que seja difícil comparar dados obtidos de regiõ es distintas e que se subestime a carência em iodo em populações desnutridas (Bourdoux e cols., 1986). Levando em conta estes inconvenientes do índice iodo/creatinina, tem sido proposto que o iodo urinário seja expresso como concentração em mg/dL. Estudos populacionais comparativos demonstram que, em razão da distribuição gaussiana da concentração de iodo na urina em uma amostra, há correlação entre os valores obtidos por coleta casual de urina e as amostras de 24 horas (Bourdoux, 1986).

Os níveis de iodo urinário correlacionam-se muito bem com a gravidade dos distúrbios associados à deficiência em iodo e permitem determinar o grau de urgência de sua correção (Dunn e cols., 1993b) (tabela 2).

_______________________________________________
Tabela 2 - Classificação do aporte de iodo
segundo os níveis medianos de iodo urinário.
_______________________________________________
CLASSIFICAÇÃO		Iodo Urinário (mg / dL)
Suficiência		>= 10
Deficiência leve	5,0 - 9,9
Deficiência moderada	2,5 - 4,9
Deficiência grave	< 2,5
_______________________________________________

 

2.2.1. Métodos para a Determinação do Iodo na Urina

Há vários métodos para a determinação do iodo em amostras de urina (Dunn e cols., 1993). A maioria destes métodos emprega a reação de Sandell-Kolthoff (Sandell e Kolthoff, 1937), precedida por uma etapa de digestão para a eliminação das substâncias oxidan tes e redutoras (p.ex., tiocianato), que interferem na reação (May e cols., 1990; Dunn e cols., 1993a; Dunn e cols., 1993b).

O método mais empregado de digestão da urina é o que usa o ácido clórico. Apesar do emprego desta técnica permitir boa acurácia e reprodutibilidade da determinação de iodo, tal etapa apresenta riscos de toxicidade e de explosão (consequentes à liberação d e vapores de ácido perclórico e cloro), que limitam o seu uso aos laboratórios especializados. Recentemente, descreveu-se um novo método que substitui o ácido clórico pelo persulfato de amônio com excelente correlação, segurança e baixo custo (Pino e cols ., 1996).

3. Suplementação de Iodo às Populações Deficientes

A solução empregada para a suplementação de iodo às populações deficientes tem sido a iodação do sal comestível na Europa e na América do Norte desde a década de 20. Atualmente, há um consenso que esta é a melhor forma de reposição de iodo para grandes po pulações, tanto pelo aspecto prático quanto pelo baixo custo de tal programa (cerca de US$ 0,05/habitante/ano)(WHO, 1994). Em casos particulares, pode-se empregar outras formas de suplementação, como por exemplo, a iodação da água (em pequenas comunidades ) e a prescrição de óleo iodado para gestantes e nutrizes e quando houver urgência na correção da carência (Dunn e Van Der Haar, 1992).

4. O Combate à Deficiência em Iodo no Brasil

4.1. Os Inquéritos Nacionais de Prevalência de Bócio no Brasil

Apesar das descrições de manifestações da carência de iodo serem precoces em nossa história e de alguns estudos limitados sobre a sua prevalência em nosso meio (Arruda Sampaio, 1941; Medeiros-Neto, 1975; Dantas, 1986), o primeiro inquérito nacional foi re alizado apenas em 1955, sob coordenação da Divisão de Organização Sanitária do Ministério da Saúde. Este estudo, que compreendeu a avaliação de 86.217 escolares, detectou prevalência de bócio de 20,7% e delimitou as zonas de bócio endêmico.

______________________________________________________
Tabela 3 - Bócio entre escolares, 1974-76
(Medeiros Filho, 1976; Dantas, 1986).
______________________________________________________
Unidade da Federação	Total examinado	   % com bócio
Rondônia	             2.019	       31,3
Acre	                     1.840	       15,4
Amazonas	             8.680	       12,0
Roraima	                     1.106	        1,3
Pará	                    14.536	       12,3
Amapá	                     3.725	        4,9
Maranhão	            13.150	       25,7
Piauí	                     9.216	        3,1
Ceará	                    19.547	        6,3
Rio Grande do Norte	    12.400	        0,7
Paraíba	                    11.571	        1,0
Pernambuco	            17.331	       10,0
Alagoas	                    10.650	        9,6
Sergipe	                     6.084	        1,5
Bahia	                    26.239	       33,3
Minas Gerais	            55.527	       28,6
Espírito Santo	            10.525	       12,4
Rio de Janeiro	            27.070	       14,5
São Paulo	            51.115	       18,7
Paraná	                    31.587	        1,5
Santa Catarina	            16.054	        1,3
Rio Grande do Sul	    30.592	        7,2
Mato Grosso	            15.152	       16,3
Goiás	                    17.243	       13,8
Distrito Federal	     8.793	        3,0
___________________________________________________
Total	                   421.752	       14,1
___________________________________________________

 

No período de 1974 a 1976, foi realizado pela SUCAM, Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, Ministério da Saúde, o segundo inquérito nacional, envolvendo 421.752 escolares (203.251 meninos e 218.501 meninas), com idade entre 7 e 14 anos. Este est udo mostrou uma prevalência de bócio de 14,1% (11,7% para os meninos e 16,3% para as meninas), ou seja, uma redução de apenas 6,5% no período de 20 anos; houve, no entanto, uma redução significativa dos bócios visíveis (grau III) (Medeiros Filho, 1976) (tabela 3). De acordo com este levantamento, a SUCAM/MS estimou na época que cerca de 15 milhões de brasileiros eram portadores de bócio.

A partir de 1984, estabeleceram-se em vários estados municípios-sentinela, visando a monitoração periódica dos níveis de controle da endemia. Em um destes estudos, realizado em 1990 pelo INAN, Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição, Ministério da Sa úde, a prevalência de bócio foi alarmante, indicando um mau controle da endemia (Tabela 4).

________________________________________________________
Tabela 4 - Prevalência de bócio
em escolares nos municípios-sentinela
________________________________________________________
ESTADO	             MUNICÍPIO	            % BÓCIO 
________________________________________________________
Minas Gerais	   Jequitinhonha               39,4%
                   Mirabela	               29,5%
________________________________________________________
Goiás	           Palmeiras de Goiás          25,0%
                   Cabeceiras                  21,2%
                   Flores de Goiás             26,9%
                   Nova Roma	               17,4%
________________________________________________________
Maranhão	   Riachão                     16,4%
                   S.Raimundo das Mangabeiras  19,5%
________________________________________________________
Pará	           Cametá                      19,2%
                   Oeiras do Pará              20,7%
                   Limoeiro do Ajuru	       17,2%
________________________________________________________
Tocantins	   Peixe                       39,9%
                   Natividade	               28,6%
________________________________________________________

 

Tal estudo mostra a necessidade de atualização dos dados sobre a situação nacional da endemia de carência em iodo, inclusive associando o estudo de prevalência de bócio e a determinação da excreção urinária de iodo para a determinação da real dimensão do problema (Barros e Victora, 1994).

4.2. Legislação Pertinente (Dantas, 1986; INAN/FNS, 1996)

Nestes últimos 45 anos, uma série de leis, portarias e decretos vem sendo estabelecidas com o objetivo de se erradicar a deficiência de iodo no Brasil. A sequência cronológica destes eventos é a seguinte:

Lei nº. 1.944, de 14 de agosto de 1953: torna obrigatória a iodação do sal de consumo humano nas áreas de bócio endêmico. Decreto nº 39.814, de 17 de agosto de 1956: delimita as áreas de bócio endêmico, estende a iodação para todo o território nacional e atribui ao Ministério da Saúde a responsabilidade da importação dos suplementos iodados. Lei nº 6.150, de 3 de dezembro de 1974: revoga a lei nº 1.944 de 1953, fixa em 10 mg/kg o teor de iodo do sal de consumo humano, transfere o ônus da iodação para a iniciativa privada e determina que a sua fiscalização seja feita pelos estados, territ órios e municípios. Decreto nº 75.697, de 6 de maio de 1975: estabelece padrões de qualidade e de identificação para o sal de consumo humano. Decreto nº 80.563, de 20 de outubro de 1977: regulamenta a qualidade e apresentação do sal de consumo animal. Portaria ministerial (MS) nº 1.806, de 24 de outubro de 1994: aumenta o teor de iodo no sal de consumo humano para 40-60 mg/kg. Lei nº 9.005, de 16 de março de 1995: determina que cabe ao Ministério da Saúde estabelecer a correta proporção de iodo no sal consumido no Brasil e autoriza o fornecimento de iodato às indústrias beneficiadoras de sal.

Objetivos

1. Estudar, pela primeira vez, a excreção urinária de iodo em uma amostra representativa da população brasileira como um índice da ingesta nutricional deste microelemento no país;

2. Como parte do 3º inquérito nacional de recenseamento da endemia de carência em iodo no Brasil, fornecer os dados quanto à excreção urinária de iodo de escolares para que estes sejam correlacionados com os outros parâmetros de monitoração da endemia;

3. Mapear as áreas de persistência da carência de iodo no sentido de orientar a política de combate à endemia;

4. Testar um novo método semi-automatizado de determinação do iodo na urina, desenvolvido na Disciplina de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo.

Abstract | Introdução | Métodos | Resultados | Discussão | Bibliografias


Home Page | New | Links | Join | E-Mail | Members Only |
Bulletin | Files | Directory | Council | Awards | Meetings | IDD |